O 15.º episódio do podcast Diálogos sobre o Património explora as condições de trabalho e a exploração humana na vinha duriense durante as primeiras sete décadas do século XX, desconstruindo o mito do “postal ilustrado” do Alto Douro Vinhateiro.
A análise cruza a memória individual com obras de autores neorrealistas (Alves Redol, Miguel Torga, João de Araújo Correia, Manuel Mendes e Guedes de Amorim) e espólios fotográficos da Casa Alvão e Foto Beleza.
Embora o fotógrafo Domingues Alvão tenha admitido encenar poses pagando a trabalhadoras pobres, o desgaste corporal, os calos nas mãos e as roupas esfarrapadas visíveis nas imagens comprovam a dura realidade material da época.
Antes da mecanização, a criação de solo arável (surriba) exigia estilhaçar a rocha mãe de xisto com marras, picaretas, alviões e pólvora. Os cavadores manuseavam o “ferro de vinha” — uma barra de ferro maciço com mais de 1,5 metros —, sofrendo impactos mecânicos devastadores.
As mulheres transportavam pesadas lajes de xisto à cabeça sob calor abrasador ou frio intenso para construir os muros de pedra seca que sustentam os terraços.
Perante a praga da Filoxera no final do século XIX, surgiu a necessidade de enxertar castas europeias em bacelo americano. Devido à precisão cirúrgica exigida, os enxertadores detinham um estatuto privilegiado, chegando a comer à mesa do feitor.
Os podadores enfrentavam o inverno protegidos por capas de junça (palha entrelaçada) e socos de amieiro (tamancos de madeira). Na base social, os cavadores trabalhavam ao ritmo militar imposto pelo “rei” e pela “rainha” nas extremidades do bardo. Quando envelheciam ou adoeciam, eram descartados sem reformas ou cuidados médicos, terminando muitas vezes na indigência.
As mulheres espalhavam pó de enxofre em nuvens sufocantes, enquanto os homens carregavam pulverizadores de calda bordalesa (sulfato de cobre) a 40 ºC, o que provocava feridas e queimaduras dolorosas ao misturar-se com o suor.
A falta de revoltas devia-se à fome imediata e à extrema dependência do salário diário (geira) para alimentar a família naquela mesma noite.
As rogas (grupos sazonais vindos da Beira e do Minho) realizavam a colheita, e os carregadores transportavam cestos (gigos) de 60 kg de uvas pelas encostas íngremes.
Após 10 a 12 horas de trabalho no campo, os trabalhadores entravam nos lagares de granito à noite, marchando abraçados ao ritmo de um marcador (“Esquerdo, direito!”). O grito de “liberdade” e o início da música e dança representavam uma catarse emocional para libertar a tensão acumulada, e não uma celebração festiva folclórica.
Os trabalhadores pernoitavam amontoados no chão sobre palha de centeio em espaços degradados por cima dos armazéns, sem divisórias, higiene ou privacidade.
O programa conclui ressaltando que a beleza patrimonial do Douro e a apreciação contemporânea de um cálice de vinho do Porto assentam num esquecimento intencional do sofrimento e da exploração das milhares de pessoas anónimas que ergueram a paisagem com as próprias mãos.
O património cultural constrói-se em camadas. Constrói-se em camadas de tempo, de memória, de significados. Cada objeto, cada lugar, cada narrativa encerra vestígios que ultrapassam o visível e convocam a novas leituras. Este é o “Diálogos sobre o Património”, um podcast do Museu da Memória Rural, dedicado à reflexão crítica sobre o património cultural, material e imaterial, à sua interpretação e aos seus contextos. Em cada episódio, exploramos as relações entre cultura, território e identidade, convocando diferentes perspetivas e disciplinas para compreender o passado neste nosso presente.