Oepisódio 16# do podcast “Diálogos sobre o Património”, debruça-se sobre a história das alcunhas portuguesas.
Imagine-se o cenário: Portugal, algures no século XVII. Um oficial de justiça ou um cobrador de impostos caminha pesadamente por uma estrada de terra batida, carregando debaixo do braço o seu enorme calhamaço de registos. Ao chegar à aldeia, depara-se com um labirinto antropológico. Abre o livro e lê: o pai chama-se António Luís, o filho Domingos Gonçalves e o neto responde por Domingos Borges. Oficialmente, para o Estado, não partilham um único apelido; são três perfeitos estranhos unidos pelo sangue, mas separados pela burocracia.
Para o oficial, este é um pesadelo logístico. Se ousasse perguntar aos vizinhos pelo paradeiro de Domingos Borges, receberia apenas um encolher de ombros. No entanto, bastaria uma pequena correção na pergunta: “Onde mora a família dos Grilos?”. Imediatamente, dez dedos apontariam para a porta certa. Este universo paralelo — onde o nome no papel é uma abstração e o rótulo da comunidade é a verdade absoluta — revela a força da antroponímia informal em Portugal.
A nossa atual rigidez na transmissão de apelidos é uma construção histórica tardia. Após o colapso do sistema clássico romano — o organizado trianomina que caiu com o Império —, a Península Ibérica viveu uma lufada de ar fresco com os nomes germânicos únicos. Contudo, a pressão demográfica medieval exigiu soluções: surgiram os patronímicos (o sufixo -es indicando “filho de”, como Fernandes ou Henriques), os toponímicos e as profissões.
Mas entre os séculos XVII e XIX, Portugal mergulhou numa autêntica “roleta russa” de nomes. É aqui que reside um pormenor linguístico crucial que ainda hoje causa confusão: enquanto em Portugal Continental o “apelido” é o nome de família legal, no Brasil e na Madeira o termo “apelido” manteve o seu sentido arcaico de alcunha informal.
“A indisciplina foi total. As pessoas adotavam apelidos por conveniência, indo buscar o apelido da mãe saltando o do pai, ou adotando o nome de um tio distante que tivesse mais prestígio na região ou lhes tivesse deixado uma herança.”
Esta anarquia só foi domesticada na Primeira República, com a obrigatoriedade do Registo Civil. Até lá, o vazio de identidade deixado por um Estado ausente foi preenchido pela criatividade impiedosa da vizinhança.
Nem a coroa escapava a este sistema de designações paralelas. Os cognomes dos reis de Portugal operavam numa fronteira porosa entre o marketing político e a observação clínica. Quando Dom João II é apelidado de “O Príncipe Perfeito”, assistimos a uma manobra de relações públicas, uma tentativa de moldar a narrativa histórica através do poder.
Contudo, o povo não perdoava. A mesma impiedade de observação que rotulava um camponês era aplicada ao monarca supremo. Títulos como “O Gordo” (Dom Afonso II) ou “O Inconstante” (Dom Fernando) provam que, perante o olhar da comunidade, o verniz da realeza não escondia os defeitos físicos ou morais. O cognome monárquico tentava individualizar para a eternidade; a alcunha rural servia a sobrevivência social do dia a dia.
Nas comunidades rurais isoladas, a homonímia era um problema funcional. Numa aldeia com vinte Josés e quinze Marias partilhando três ruas, o nome de batismo tornava-se inútil. A alcunha não era uma brincadeira; era um autêntico cartão de identidade comunitário.
Aqui, o indivíduo enfrenta a sua maior impotência. Ele não tem as “credenciais de administrador” da sua própria identidade. A aldeia funciona como uma enciclopédia viva onde o histórico de edições é atualizado à soleira da porta, sem qualquer direito de veto por parte do visado.
Existe uma tensão ética profunda na atribuição destes nomes. A etnografia define o “discurso de rigor” como a prioridade máxima da comunidade em capturar a verdade inegável de alguém, doa a quem doer. Por isso existiam as alcunhas mentirosas e irónicas. O sarcasmo era uma arma de marcação de alteridade. Chamar “Lavrador” (o topo da hierarquia social) a um forasteiro pobre que acabava de chegar à terra era um exercício de ironia cruel para sublinhar a sua exclusão.
Mas muitas vezes, para suavizar o escrutínio, utilizava-se o “algodão” dos diminutivos. Defeitos físicos eram atenuados com termos como “pancinho” ou “canhotinho”, tentando integrar o indivíduo através de um afeto condescendente.
“O pior castigo não era ter uma alcunha feia, era ser invisível. Ter uma alcunha significava que a pessoa existia para o grupo; era o preço da pertença.”
O estudo de Carlos Seixas sobre a aldeia de Felgar (Torre de Moncorvo) é um tratado sobre esta matéria. Ele provou que a geografia ditava a produção de nomes: na zona do Eiró, habitada por artesãos e pobres, a fábrica de alcunhas era frenética. A pobreza e a interdependência geravam fricção social, e a fricção social gerava material para a observação.
É em Felgar que encontramos casos que condensam tragédias humanas em poucas sílabas. O caso de Cibaco é, talvez, o mais dilacerante: um menino ilegítimo de um proprietário rico que o ignorava. A aldeia, observando que a criança se contentava com um “cibo” (um pedaço ínfimo) de atenção ou de sobras, cravou-lhe a alcunha. Foi um duplo julgamento: piedade pelo rapaz e um murro no estômago do pai ausente.
A observação era quase ornitológica, como nos Bicarrolos — uma família de lavradores comparada às rolas da região, que comem e bebem imersas na terra, tal como eles trabalhavam vergados de sol a sol. Já o Canário representava a resiliência: oleiros miseráveis que moldavam o barro cantando, provando que a dignidade rural também tinha a sua música.
Por vezes, a alcunha é tão potente que devora o nome oficial. O caso de Angelino é o exemplo perfeito da exportação da alcunha. Conhecido em Felgar apenas por ser filho da Angelina, o jovem emigrou para o Brasil no final do século XIX. Lá, o rótulo informal de uma rua transmontana converteu-se no apelido oficial dos seus descendentes, transformando a brincadeira de aldeia em lei do outro lado do Atlântico.
Quando a escala aumenta, entramos no domínio dos apodos étnicos (nomeadas coletivas). Este é o mecanismo sociológico de delimitar o “nós” contra os “outros”.
Entre o apodo étnicos havia os consensuais, ou seja, aqueles que eram aceites com brio (ex: os “Charros” de Mofreita). Havia outros que eram de disputa, como em Vila da Ponte, onde a população rejeitou o insulto de “Chavalheiros” e autointitulou-se “Fidalguinhos” — uma gestão de crise de autoestima notável.
Mas o caso de Carção, em Vimioso, é um verdadeiro palimpsesto antropológico. Ali, as camadas da história (cristãos-novos, judeus, marranos) sobrepõem-se a rótulos profissionais como “batoteiros” ou “peliqueiros”.
Estas histórias não viajavam por decreto, mas sim através de um vírus cultural transportado pelos “agentes difusores”: feirantes, padres, médicos e mendigos. Eles eram a rede social analógica, os terceiros instruídos que levavam o mexerico e a troça de um vale para o outro.
Hoje, assistimos a um apagão deste património. O envelhecimento demográfico e a transição da cultura oral para a digital estão a secar estas narrativas. O sumo poético de identidades forjadas na observação paciente — como a do vaidoso Lustro, o barbeiro que polia os sapatos até espelharem — corre o risco de desaparecer perante a amnésia coletiva.
Nos nossos grupos de WhatsApp ou escritórios modernos, ainda somos capazes de observar o outro com esta espessura humana, ou apenas colamos etiquetas descartáveis de produtividade? No mundo digital, as alcunhas são rápidas e frias; falta-lhes o adubo da terra e o contacto orgânico. Talvez valha a pena refletir sobre isto na próxima vez que olhar para a frieza plástica do seu Cartão de Cidadão: quem é você para além do nome que o Estado lhe deu?
O património cultural constrói-se em camadas. Constrói-se em camadas de tempo, de memória, de significados. Cada objeto, cada lugar, cada narrativa encerra vestígios que ultrapassam o visível e convocam a novas leituras. Este é o “Diálogos sobre o Património”, um podcast do Museu da Memória Rural, dedicado à reflexão crítica sobre o património cultural, material e imaterial, à sua interpretação e aos seus contextos. Em cada episódio, exploramos as relações entre cultura, território e identidade, convocando diferentes perspetivas e disciplinas para compreender o passado neste nosso presente.