#10 – O fresco renascentista no Nordeste Transmontano

Diálogos sobre o PatrimónioO fresco renascentista no Nordeste Transmontano
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Este décimo episódio do podcast “Diálogos sobre o Património”, explora a pintura mural quinhentista no Nordeste Transmontano, revelando um fenómeno artístico estruturado que desafia a ideia de que esta região era uma periferia culturalmente pobre.

Os principais pontos abordados centram-se em numerosos casos de pintura a fresco descobertos e recentemente restaurados na região. Existem imensos conjuntos pictóricos identificados nos concelhos de Miranda do Douro, Mogadouro, Alfândega da Fé e Torre de Moncorvo. Enquanto alguns foram restaurados (como em Picote e Adeganha), outros permanecem escondidos atrás de retábulos de talha dourada barrocos, que anularam durante cerca de 300 anos a comunicação visual destas obras renascentistas sem, no entanto, as destruir.

Durante décadas, a academia ignorou este espólio, rotulando-o como artesanato rústico. No entanto, registos históricos de visitações bispais já comprovavam uma produção de grande escala. O “purismo de estilo ” propalado durante o fascismo do século XX português também levou à destruição de muitos frescos na tentativa de devolver os edifícios a uma “pureza” medieval idealizada.

O episódio destaca ainda que o fresco era o “topo de gama” da pintura, exigindo planeamento milimétrico e rapidez, pois não permitia a correção de erros após a secagem da argamassa. Pintores de renome, como Baltazar de Morais e Tristão Correia, atuaram na região nordestina, demonstrando uma atualização estética constante com as correntes europeias desse período.

Casos de Estudo:

Abrigo dos Santos (Sendim): Uma fusão entre arte e geologia, onde a pintura se adapta à rocha irregular.
Igreja de Picote: Apresenta um retábulo fingido com domínio da perspetiva linear e do trompe l’oeil.

Mestre de Legoinha: Identificado através do uso de estampilhas (moldes manuais únicos) para decorar fundos, o que permitiu rastrear o seu trabalho em ambos os lados da fronteira luso-espanhola, provando que a linha política era uma “abstração” para os artistas.

O Caso de Frei Jordão do Espírito Santo: Na Capela da Senhora da Teixeira,concelho de Torre de Moncorvo, este ermitão e mestre pintor, pensa-se hoje, deixou um autorretrato e demonstrou erudição ao utilizar gravuras flamengas e italianas como modelos, provando que a informação visual circulava intensamente via circuitos clericais, mesmo em locais mais recônditos, como era ao local da Ermida de Nª Srª da Teixeira.

Em suma, poderá ser afirmado que o estudo destas pinturas reafirma o Nordeste Transmontano como uma geografia vital na época do Renascimento, destacando-se na atualidade a necessidade urgente de conservação e constituição de rotas culturais para proteger este património contra a incúria e o abandono.

Um Podcast do Museu da Memória Rural

Diálogos Sobre o Património

O património cultural constrói-se em camadas. Constrói-se em camadas de tempo, de memória, de significados. Cada objeto, cada lugar, cada narrativa encerra vestígios que ultrapassam o visível e convocam a novas leituras. Este é o “Diálogos sobre o Património”, um podcast do Museu da Memória Rural, dedicado à reflexão crítica sobre o património cultural, material e imaterial, à sua interpretação e aos seus contextos. Em cada episódio, exploramos as relações entre cultura, território e identidade, convocando diferentes perspetivas e disciplinas para compreender o passado neste nosso presente.

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