#13 – O futuro nasce das raízes das comunidades

Diálogos sobre o PatrimónioO futuro nasce das raízes das comunidades
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[dropcap]O[/dropcap] 13º episódio do podcast “Diálogos sobre o Património” apresenta uma interpretação da obra “As Raízes do Futuro – O património a serviço do desenvolvimento local” (2012), de Hugues de Varine, um dos precursores da Nova Museologia e do conceito de ecomuseu e museu de identidade territorial.

A Nova Museologia rompe com a ideia tradicional de museu como um edifício fechado que guarda objetos estáticos. Nesta visão, o museu é o próprio território (sem paredes) e a sua coleção é composta pelas pessoas, paisagens, saberes tradicionais e pela vida quotidiana da comunidade.

O título do livro é uma metáfora mecânica. O património não é uma âncora que nos prende ao passado, mas sim raízes que nutrem e dão estabilidade para que a comunidade possa crescer em direção ao futuro.

O autor critica duramente o modelo de desenvolvimento “exógeno”, imposto de cima para baixo por técnicos e investidores externos. Tentar impor modelos genéricos de fora é como plantar uma palmeira tropical na neve; pode-se gastar muito dinheiro a mantê-la viva artificialmente, mas ela morrerá assim que os recursos acabarem porque não pertence àquele ecossistema.

O verdadeiro desenvolvimento deve ser endógeno, potenciando a “flora nativa” (recursos e cultura locais) de forma orgânica e humana. Para Hugues de Varine, o património é o ADN da comunidade e deve ser usado, consumido e adaptado diariamente, em vez de ser apenas contemplado. Um dos mecanismos centrais para isto é o Inventário Participativo (ou partilhado).

Em vez de especialistas decidirem o que tem valor (ex: uma capela antiga), é a própria comunidade que mapeia o que tem significado emocional e identitário para si (ex: um lavadouro comunitário onde se criaram redes de solidariedade).

O arqueólogo ou historiador deixa de ser um “ditador” técnico e passa a ser um mediador ou facilitador ao serviço dos locais.

O Museu da Memória Rural de Carrazeda de Ansiães é um exemplo prático ideal destas teorias, por ser um museu vivo. Não se limita a expor objetos antigos; integra-se nos ciclos agrícolas ativos (vinho, pastorícia, azeite, artesão, etc.) e trabalha com os agricultores de hoje. Valida o conhecimento dos mais velhos e mostra aos jovens que existe um capital de saber na sua terra que pode ser um motor económico sustentável.

A Metáfora do Espelho. Enquanto o museu clássico é uma “janela” para o passado, o museu de identidade territorial é um “espelho” onde a comunidade se vê refletida, reconhece o seu valor e ganha confiança para moldar o seu futuro

A mensagem final é que o sucesso de um território não se mede pela bilheteira turística, mas pelo impacto na sustentabilidade social e económica e na capacitação local. Se a população não sentir afeto pelo seu património e não for a protagonista da sua gestão, nenhum investimento externo criará raízes sólidas.

Um Podcast do Museu da Memória Rural

Diálogos Sobre o Património

O património cultural constrói-se em camadas. Constrói-se em camadas de tempo, de memória, de significados. Cada objeto, cada lugar, cada narrativa encerra vestígios que ultrapassam o visível e convocam a novas leituras. Este é o “Diálogos sobre o Património”, um podcast do Museu da Memória Rural, dedicado à reflexão crítica sobre o património cultural, material e imaterial, à sua interpretação e aos seus contextos. Em cada episódio, exploramos as relações entre cultura, território e identidade, convocando diferentes perspetivas e disciplinas para compreender o passado neste nosso presente.

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